quarta-feira, 9 de abril de 2014

Fiesp e Itaú apoiaram a ditadura

Por Tatiana Merlino, no blog Viomundo:

“Fiesp financiou a ditadura civil militar”, anuncia, em letras vermelhas, um cartaz colado num poste na Alameda Santos, zona oeste de São Paulo. “O Itaú apoiou a ditadura civil militar”, diz outro cartaz, colado na frente de uma agência do banco, na mesma rua. Postes, muros, lixeiras, pontos de ônibus e até um posto da Polícia Militar dos bairros Cerqueira César, Jardins e Bela Vista foram forrados na noite desta terça-feira, 8, por centenas de cartazes acusando a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) de ter articulado durante a ditadura civil militar (1964-1985) reuniões de empresários que apoiaram financeiramente a repressão a opositores do regime.

“De 1971 a 1978, Geraldo Resende de Mattos, funcionário da Fiesp, visitou até quatro vezes por semana o Dops, um violento centro de tortura e repressão da ditadura”, denuncia o panfleto, assinado pela Frente do Esculacho Popular (FEP), organização formada por militantes de direitos humanos que denunciam a violência do Estado cometida durante a ditadura militar e também no período democrático. A sede da Fiesp está localizada no número 1313 da Avenida Paulista.

Sobre o Itaú, os cartazes dizem: “Os vínculos do Itaú com a ditadura foram tão grandes que um de seus controladores, Olavo Setúbal, foi prefeito nomeado (sem voto popular) de São Paulo, de 1975 a 1979”. No documento, os manifestantes lembram, ainda, que no começo deste ano o Itaú distribuiu uma agenda a seus clientes em que o dia 31 de março, data do golpe militar de 1964 que instaurou uma ditadura no Brasil, é chamado de “aniversário da revolução de 1964”, como os apoiadores da ditadura se referem a esse dia.

A participação de civis, em especial os empresários brasileiros, no golpe militar de 1964 e o apoio financeiro dado durante a ditadura tem sido tratada pelas Comissões da Verdade. A Comissão da Verdade de SP realizou audiências apresentando as relações da Fiesp com a ditadura e mostrando como o empresariado nacional se beneficiou do regime. Em fevereiro deste ano, o coronel reformado do Exército Erimá Pinheiro Mota relatou que a Fiesp subornou o general Amaury Kruel para que ele apoiasse o golpe de Estado de 1964, que derrubou o presidente João Goulart. Ele afirmou à Comissão da Verdade da Câmara Municipal de SP ter presenciado o ex-presidente da Fiesp Raphael de Souza Noschese, na companhia de três homens, chegar a uma reunião com o general com uma mala contendo 1,2 milhão de dólares.

PS do Viomundo: Recentemente, depois de mandar recolher agendas do banco impressas com o 31 de março assinalado como “aniversário da Revolução” de 1964, o banco afirmou em nota: “Em nada reflete o DNA e as crenças do Itaú Unibanco. Lamentamos o desconforto causado. Somos uma instituição financeira que respeita a diversidade de pensamentos e ideias e a democracia”.

1 comentários:

Guilherme Scalzilli disse...

Ditadura nunca mais

Há cinqüenta anos o país foi tomado por uma tenebrosa onda reacionária que instaurou duas décadas de atraso, corrupção, violência e injustiça. A ditadura assassinaria centenas de cidadãos, torturaria milhares e deixaria um legado ainda maior de traumas pessoais. Suas conseqüências trágicas sobrevivem ao esquecimento e à impunidade.
A historiografia fornece muitas versões acerca das origens sociopolíticas do fenômeno. Podemos recuar até aos tempos de Getúlio Vargas, talvez mesmo antes, seguindo a linha genealógica do ressentimento das Forças Armadas e das facções partidárias que as apoiariam em 1964. Mas existem falácias inaceitáveis, que não dependem de interpretações e metodologias.
A maior delas se refere às boas intenções contrarrevolucionárias dos golpistas. É a tal “culpa do Jango”. O temor infundado de uma insurreição comunista sempre serviu para amenizar a culpa dos setores antidemocráticos, particularmente na imprensa. Essa mentira continua sendo utilizada, sugerindo que em algumas situações a inconstitucionalidade e o cinismo são “aceitáveis”.
O segundo mito é o do protagonismo militar na efeméride. O golpe foi um ato civil, articulado por empresas, partidos e lideranças políticas, inclusive governadores, deputados e senadores. Recebeu apoio veemente e mesmo institucional da igreja católica, dos veículos de comunicação, de amplos setores das classes médias urbanas e de certas personalidades que depois abraçariam a causa democrática e hoje posam de heróis. A famigerada Marcha da Família serve como símbolo dessa união.
A terceira inverdade refere-se às supostas “conquistas” do regime. Os anos militares foram marcados pelo endividamento financeiro, pela decadência do serviço público brasileiro, principalmente na educação, e pelo comprometimento do país com opções equivocadas nas mais diversas áreas estratégicas. Não houve herança positiva daquela infeliz aventura da direita local.
Há outros delírios interpretativos sobre o período: a pretensa “brandura” da violência militar brasileira, a natureza autoritária da resistência armada, o papel saneador e reativo do endurecimento do regime, a participação do governo dos EUA (J. F. Kennedy) na preparação do golpe, etc. São temas para muitas relativizações pontuais, que os debates midiáticos se incumbem de provocar.
O importante, agora, é reconhecer nesses discursos as marcas de um espírito antidemocrático que jamais arrefeceu. Pois o golpismo também se manifesta na manipulação e no logro.


http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2008/09/o-esquecimento-conciliador.html