quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Philip Goldberg, o separatista da Bolívia

Por Altamiro Borges

Numa entrevista exclusiva à TV Brasil, nesta quarta-feira (17), o presidente Lula criticou a ação dos golpistas na Bolívia e elogiou a decisão do governo boliviano de expulsar Philip Goldberg, o embaixador-separatista dos EUA. De forma diplomática, mas incisiva, ele afirmou:

“Se o embaixador fazia reuniões com a oposição, o Evo está correto em mandá-lo embora. Papel de embaixador não é fazer política dentro do país... Aqui no Brasil, uma embaixadora americana, num jornal brasileiro, respondeu a uma crítica que tinha feito ao Bush. Mandei o Celso Amorim chamá-la e dizer que não era admissível ela dar palpite sobre uma entrevista do presidente da República... Isto não é de hoje. É famosa a interferência das embaixadas americanas em vários momentos da história do nosso continente. Então, eu acho que houve um incidente diplomático. Se o embaixador estava tendo ingerência política, o Evo está correto”.


“Tio Sam é bom de garfo”

A entrevista de Lula, assim como a resolução da União das Nações da América do Sul (Unasul) de manifestar total apoio ao governo constitucional de Evo Morales, sinaliza uma nova fase nas relações entre esta sofrida região e o “império do mal”. Desde as idéias do “Destino Manifesto” e da “Doutrina Monroe”, no século XIX, os EUA consideram a América Latina um quintal de seus interesses econômicos e geopolíticos. James Monroe, presidente ianque entre 1817-1825, ficou famoso ao declarar que a “América é dos americanos”. Seu secretário de Estado, Willian Evarts, foi mais explicito na visão imperialista durante um encontro com banqueiros em Nova Iorque:

“A América para os americanos. Ora, proporia com prazer um aditamento: para os americanos, sim senhor, mas bem entendido, os americanos do norte. Comecemos pelo nosso caro vizinho, o México, de quem já comemos um bocado em 1848. Tomemo-lo. A América Central virá depois, abrindo nosso apetite para quando chegar a vez da América do Sul. Olhando para o mapa, vemos que aquele continente tem a forma de um presunto. O Tio Sam é bom de garfo: há de devorar este presunto. Isto é fatal, isto é apenas uma questão de tempo”. Philip Goldberg, conhecido por suas ligações com a CIA, é um adepto dessa visão. Lula sabe disso, só não quis ser mais direto.

Experiência em conflitos separatistas

Logo após ser indicado embaixador em La Paz, em 2006, o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de várias obras sobre a política imperial dos EUA na América Latina, alertou que Goldberg daria dor de cabeça ao governo Evo Morales e investiria na divisão do país. No artigo “A balcanização da Bolívia”, ele advertiu: “Esse diplomata tem experiência em conflitos étnicos e tendências separatistas, que irromperam no Leste Europeu após a desintegração da Iugoslávia”. Ele lembrou que o “diplomata” trabalhou na questão da Bósnia, no Departamento de Estado, foi assistente do embaixador Richard Holbrook, o artífice da desintegração da Iugoslávia, e foi chefe da Missão dos EUA em Prístina, Kosovo, onde orientou a separação da Sérvia e Montenegro.

Para o renomado escritor, o separatismo faria parte dos planos estratégicos dos EUA, inclusive visando o controle de reservas de petróleo. No caso de Santa Cruz, principal foco da conspiração golpista contra Evo Morales, a região possui 2,8 trilhões de pés cúbicos de gás dos 26,7 trilhões de reservas provadas da Bolívia. “Se somadas às prováveis reservas, o volume sobe para 48,7 trilhões de pés cúbicos”, descreveu. Moniz apontou, então, que Goldberg fora escolhido a dedo pela administração Bush para “conduzir o processo de separação de Santa Cruz de la Sierra, em meio à exacerbação das tensões étnicas, sociais e políticas, aguçadas pelo choque de interesses econômicos das distintas regiões da Bolívia”. O seu presságio, infelizmente, agora se confirma!

O bordão da mídia golpista

Documento escrito por quatro deputados do Movimento ao Socialismo (MAS) relata vários fatos ocorridos nos departamentos da região leste que comprovam a ingerência política do “diplomata” com o objetivo de desestabilizar o governo Evo Morales e de dividir o país. O texto lembra que “no dia 13 de outubro de 2006, os EUA enviaram à Bolívia, como embaixador, Philip Goldberg, um especialista em fomentar conflitos separatistas”. Segundo os parlamentares, depois que Evo Morales venceu as eleições presidenciais de 18 de dezembro de 2005, os partidos tradicionais e as elites sofreram um duro golpe e Philip Goldberg se encarregou de reorganizá-los.

O texto mostra que o embaixador ianque organizou uma ampla coordenação de empresários do leste, com a participação dos donos da mídia privada e de políticos do movimento Podemos. A mídia se encarregou de manipular a sociedade, difundindo que o narcotráfico estava crescendo no país e que o governo era corrupto e culpado pela violência. O bordão foi que “Evo dividia a Bolívia”. A partir deste clima de desestabilização, ele se reúne, em maio passado, com o golpista Jorge Quiroga e acerta a convocação do referendo revogatório dos mandatos públicos. Em junho, ele viaja aos EUA para, segundo os deputados, definir um plano junto às agencias publicitárias visando desenvolver a guerra suja que pudesse causar a derrota de Morales no referendo.

O terrorismo do Plano B

Os separatistas estavam convencidos de que o novo presidente não obteria 50% dos votos e seria forçado a renunciar. Só que o plano deu errado e Morales aumentou sua votação, obtendo 67,4% dos votos – bem acima dos 53,3% conquistados na eleição presidencial. Diante do fiasco, Philip Goldberg colocou em marcha o Plano B, que incluía greves, bloqueios às estradas e ocupação de prédios públicos. O objetivo era forçar a ação violenta da polícia e do exército. Os conflitos com mortes levariam a convocação de novas eleições ou permitiriam que o “embaixador” oferecesse aos prefeitos opositores a presença de mediadores internacionais, inclusive com tropas da ONU, para viabilizar o separatismo dos quatro departamentos rebeldes, como ele já fizera em Kosovo.

Segundo os deputados do MAS, com base neste plano Goldberg viajou a Sucre e se reuniu com a prefeita Savina Cuellar, que pediu a renúncia de Morales. Em 21 de agosto, ele teve um encontro clandestino com o prefeito de Santa Cruz, Rubén Costas, e com quatro congressistas ianques. Na seqüência, a oposição rejeitou o chamado ao diálogo e, no dia 24 de agosto, convocou uma greve geral. Seguindo as ordens de Goldberg, os golpistas também intensificaram as provocações às forças armadas. Em 1º de setembro, o megaempresário Branco Marinkovic viajou aos EUA, no avião Beechcraft, matrícula C-90A, para discutir o desfecho do golpe. Após o seu regresso, em 9 de setembro, os confrontos ficaram mais sangrentos, com várias mortes de camponeses.

Diante destes graves fatos, Evo Morales emitiu nota considerando Goldberg persona non grata e decidiu expulsá-lo da Bolívia. Como gesto de solidariedade, o presidente Hugo Chávez também expulsou o embaixador ianque de Caracas, sendo logo acusado de “bravateiro e provocador” pela mídia servil do Brasil. No mesmo rumo, o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, suspendeu a apresentação das cartas credenciais ao novo embaixador dos EUA no país, Hugo Llorens. Já o presidente Lula se limitou a declarar à TV Brasil que “Evo está correto ao mandar embora” o embaixador-terrorista. Como se observa, o Tio Sam, apesar da gula, já não está com a bola toda!

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